outubro 18, 2006

Brasileiro não desiste nunca ..

O brasileiro é persistente porque viver aqui é coisa para poucos. Exige-se de todos nós um grau de paciência que na vida pós-vida, creio, teremos todos os tipos de compensações.

Digo isso porque quem precisa usar dos serviços públicos cotidianamente sabe o quanto é complicado conseguir alguma coisa, mesmo que esta coisa seja de seu direito. E não só: experimente falar com a principal operadora de telefonia aqui das praias cariocas. Ou precisar dos serviços prestativos de um cartório. Coisa para escolhidos.

Minha mãe teve problemas com órgão regulador do nosso transporte. Teve o carro apreendido, tudo nos conforme. Tava errada e nada tinha a fazer. Paga as pendências financeiras lá foi ela para o Centro da cidade resgatar o carro. Chegando lá, a moça da repartição que tinha que atende-la estava comprando anéis e assim ficou por bom tempo, ignorando a fila de pessoas esperando atendimento. Ficou ali, comprando anéis de forma impassível. É isso aí. Comprou, tomou café, bateu papinho e naquela agilidade peculiar veio atender as pessoas.

Aí .. você fica nervoso, grita, xinga e os cacete a 4 ... você é grosso.

Pois bem. Ontem à noite uma amiga teve o celular furtado no Centro da cidade. Passamos por dois PMs que nos disseram que tínhamos que fazer o RO (Registro de Ocorrência) na delegacia que cobre a área. Delegacia esta que fica ali na rua da TV estatal. Pegamos um carro, fomos até lá ...

- Olha .. eu até podia atender vocês, mas não é aqui que faz o registro. Tem que fazer na 1º DP.
- Mas aqui tá cheio de computador vazio ..
- Mas não dá .. tem que ser lá .. eu podia até fazer, mas só tenho eu de plantão ...

Ok. Furto de celular. Nenhum ferido, nenhum tiro disparado. Ele faria aquilo em questão de segundos. Fomos a 1º DP e lá, num prédio que mais parecia uma casa mal assombrada, encontramos três ótimos policiais que nos atenderam super bem.

Aí ... é nessas horas que você entende os livros do Nelson Rodrigues. Porque foi na máquina de escrever que o policial bateu o RO que o Nelson Rodrigues escreveu seus llivros. Aquela máquina devia ter, no mínimo, a minha idade. E o cara, enorme de grande, me sacou um par de óculos que devia ser da mulher dele ou que ele achou em alguma batida, porque era de armação de mulher e muito menor que o rosto dele. Pensando bem ... ele devia ter aquele óculos na adolescência. E o cara bateu o RO todo solítico naquele cenário de filme policial dos anos 50 e ainda saiu para comer um churrasquinho de gato que me fez babar de vontade. Tanto é que comi o churrasquinho de gato. Mas essa eu conto depois.

Então .. o cara bateu o RO e anunciou o seguinte:

- A senhora só pode levar amanhã porque o delegado só fica aqui até às 18h.

Ih é? E se eu for assaltada às 22h? Ou 23h?
E se eu for de outro estado e precisar levar aquele bendito RO????

Huuuuummm .. o outro policial, muuuuuuuuuuito gentil, foi, na chuva, até a outra delegacia, naquela que a gente foi primeiro, e levou o RO para o delegado de lá assinar. Sacaram?

Eu fui na delegacia, o cara me mandou fazer o RO em outra delegacia, que fez o registro, mas quem assina é o delegado da primeiroa delegacia que eu fui. Deu pra entender?

Se o desfecho foi no local onde tudo começou porque não ficamos por lá?
Esse é o mistério da fé ...

E não é que o cara voltou com a assinatura?
Voltou. E fomos embora com o bendito RO.

Por que?
Porque somos brasileiras e não desistimos nunca.

Um comentário:

Lalá disse...

Nara,
Esse relatos são uma demonstração de bagunça do Brasil.
Sou carioca da Gema, nascida em Vila Isabel, adoro a minha cidade!!! Estou falando isso porque me mudei para SP fazem 4 meses, e já tive que lidar com algumas coisas parecidas e por aqui não é TÃO ruim assim...
Parece que o Rio foi esquecido abandonado... É meio que nem uma mulher bonita que acha que isso já basta já é suficiente, ela não precisa ser mais nada na vida... O Rio está assim se achando, mas quando vamos ver está faltando o conteúdo! Uma pena, porque eu AMO a minha cidade!