Na melhor cena do filme Madame Satã, o ator Lázaro Ramos narra a saga de Jamacy para si mesmo. Nos fundos de um bar sujo, num camarim improvisado, o ator interpreta o mitológico boemio carioca, que na cena se prepara para fazer seu primeiro show, de forma visceral. Como uma pantera, ele destila seu ódio sobre sua imagem de homem transvestido e, sem saber, torna-se ele mesmo um mito.
A saga de um negro pobre, analfabeto, bruto e homossexual, contada por uma câmera claustrofóbica, em tons vermelhos e crus. Madade Satã, do diretor Karim Ainouz, é sobretudo um filme sobre o submundo pobre e sujo daqueles que escolhem a noite para sobreviver. Um mundo onde homens se espreitam em busca de um prazer proibido à luz do dia. Longe de ser a biografia do homem João Francisco do Santos, o filme muito menos narra o nascimento do mito. As luzes do cinema se acendem quando nasce Madame Satã e se apagam quando João, humilhado em seu esplendor, condena sua sorte ao cárcere.
Filho de Iansã e Ogum, devoto de Josephine Baker, João era da contracultura quando ela nem mesmo existia. Desafiava a tudo e a todos na base do tapa. Bicha por opção, era pai, amigo e conselheiro. Morreu aos 76 anos, isolado no interior. Viveu 27 na cadeia, criando em torno de si a mitologia que sobrevive até hoje, tempos escassos de malandros que querem apenas gozar a vida sem limites. O filme, escuro, sem foco, quase cru, preenche uma lacuna importante. Retrata nas telas a vida de uma figura essencial do Rio de Janeiro. Sem se preocupar em narrar uma história, Madame Satã busca o personagem. Não desvenda, não recrimina. Arrebata pela verdade.


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