Vivemos uma época de total inversão de valores, sobretudo na área da Justiça e da segurança pública. Se não vejamos:
1)
Uma juíza que age dentro da lei e decide enfrentar quadrilhas de
assassinos infiltradas na polícia é executada sem direito a defesa pelos
alvos de sua investigação. Nem mesmo escolta tinha.
2) Os
policiais que denunciam os criminosos, incluindo os maus colegas de
trabalho, são obrigados a entrar no anonimato, enquanto que os policiais
da banda podre desafiam tudo e todos, inclusive seus superiores. Foi o
caso de um policial civil que outro dia deu entrevista escondendo a face
por denunciar os PMs que mataram a juíza.
3) Os cidadãos de bem
estão atrás de grades, cercados de câmeras, com a privacidade por um
fio, enquanto que a maioria dos criminosos está solta e livre da ação da
Justiça. Muitos desses foras-da-lei contam com advogados que os
defendem em troca de polpudos honorários e questionam, por exemplo, o
emprego de gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, acenando com a
Constituição, que garante ao acusado o direito de não produzir provas
contra si mesmo.
4) Os contribuintes que fazem sua parte e cumprem
as leis são obrigados a pagar cada vez mais impostos, enquanto que os
servidores encarregados de usar esse mesmo dinheiro dos impostos em
benefício da sociedade fazem farra com o dinheiro público sem o menor
peso na consciência e totalmente impunes.
5) Os políticos que não
se acovardam e partem para o ataque contra criminosos e perigosas máfias
acabam na mira daqueles grupos, enquanto que os políticos omissos se
mantêm encastelados em seus gabinetes com ar-condicionado e toda
mordomia, e não estão nem aí para a hora do Brasil.
O primeiro
exemplo do quinto item é o caso do deputado estadual Marcelo Freixo
(PSOL), que revelou ao repórter Cassio Bruno, do GLOBO, ter que
abandonar o país por causa das ameaças que vem sofrendo por parte de
milícias do Rio. Freixo presidiu a CPI das Milícias, que desnudou o
Poder Legislativo do Estado do Rio, mostrando com quantos votos se faz
uma milícia. Como se sabe, milícias são grupos formados por policiais e
ex-policiais civis e militares que criaram fortes vínculos com o poder
político-partidário no Estado do Rio de Janeiro -- sobretudo a partir do
final da década de 90. São grupos infiltrados dentro do poder político e
no aparelho policial. Portanto, podem agir com maior rapidez e mais
"eficácia" do que outros grupos armados. Conhecem os meandros do
aparelho policial, suas manhas e mumunhas. E agora sabem também com que
políticos podem contar na hora do pega pra capar.
Para quem não
está ligando os nomes às pessoas, sugiro uma sessão de "Z -- Estado de
Sítio", de Costa-Gavras, o filme que conta a história da conspiração
para matar um deputado, que conta com grupos ilegalmente armados e
mantidos pela própria polícia. Revi ontem, mais de 30 anos depois da
primeira vez. O filme é de 1969, foi proibido pela censura no regime
militar, mas tenho a sensação de que de tempos em tempos volta a entrar
em cartaz no Rio e em outras partes do Brasil -- a terra em que o
político que faz o certo, mais cedo ou mais tarde, vira alvo dos
errados.